Partilha de Jimmy K.



QUEM FOI JIMMY K.?
Juntamente com Frank e Doris C, Guildia K, Paul R, Steve R e outros, Jimmy K fundou Narcóticos Anónimos, no sul da Califórnia. A partir de 17 de agosto de 1953, esses companheiros realizaram uma série se reuniões, a fim de organizar o que se chamava então de "Narcóticos Anónimos e Alcoólicos Anónimos do Vale de San Fernando". A primeira reunião de recuperação documentada aconteceu no sul da Califórnia, a 5 de outubro de 1953.
Por diversas razões, Jimmy K é considerado uma figura chave da história de NA. Escreveu diversas partes do Livreto Branco, sendo a mais famosa o "Fim da Linha". Desenhou o logotipo de NA (mais tarde modificado pela WSC). Prestou serviço como gerente voluntário do WSO, desde os seus primórdios até 1983.
Jimmy K viveu de 1911 a 1985. Os últimos 36 anos da sua vida ele viveu como membro de Narcóticos Anónimos, limpo e em recuperação.

PARTILHA DE JIMMY K. NO JANTAR DO 20º ANIVERSÁRIO DE N.A.

Los Angeles, 18 de Agosto de 1973

O meu nome é Jimmy Kinnon, sou um adicto e um alcoólico. Há já uma hora que estou à beira das lágrimas. Mas hoje já não envergonho de chorar, desde que sejam vertidas por algo que valha a pena. Já nem me lembro do que queria dizer. Na nossa irmandade não podemos, todavia, perder de vista o nosso principal propósito: quer estejamos num ambiente social em nossas próprias casas, ou num encontro como este. Aquilo de que tenho de lembrar-me, pessoalmente, é de que estou aqui graças a pessoas que nunca aqui estarão. O recém-chegado constitui o sangue vital desta organização; sempre o foi, sempre o será. Aqueles a quem chamamos Servidores de Confiança de Narcóticos Anónimos, alguém que aceita um cargo (quer seja secretário de um grupo, representante de um grupo, "trustee", ou qualquer outra coisa) deve preparar-se para bastante trabalho, muitas críticas, e muito daquilo que acontece sempre. Mas nós temos de crescer, e os nossos ombros ficam suficientemente largos para aguentarem estas coisas, pois a vida que nos é dada faz com que tudo valha a pena. Se não tivesse sentido e não valesse a pena, eu não estaria aqui esta noite. Se este programa não me elevasse, não me levasse mais longe, e não me fizesse sentir melhor do que alguma coisa alguma vez conseguiu na minha vida, eu não estaria aqui. Tenho a certeza disso! Estou aqui sentado nesta cadeira - sempre admirei estas cadeiras e nunca pensei poder vir a sentar-me numa.
Mas primeiro as primeiras coisas, dizem - sabem, isto é parte de um sonho tornado realidade; e um sonho prenuncia grandes mudanças, mas o progresso requer pequenas acções. Um sonho não se torna realidade devido a um grupo de pessoas, ou a um homem, ou a dois homens, ou a três homens. Torna-se realidade porque nele trabalham muitas pessoas, porque muitas pessoas põem nele esforço, porque muitas pessoas compram a ideia e levam-na por diante. Essa é uma das razões porque estamos aqui.
A maioria de vocês repararam numas fotos ali penduradas. São algumas das fotografias dos nossos primórdios. Nós começámos muito antes de NA se tornar uma realidade, mesmo em nome. Surgimos de uma necessidade. Aqueles de nós que eram membros, tinham vindo para o AA - e descobrimos que podíamos recuperar. Em AA descobrimos que muitos adictos continuavam a seguir o trilho da degradação e da morte. E achámos que deveríamos fazer algo. Mas, sabem, nós somos pessoas engraçadas, quanto mais coisas tentamos fazer juntos, mais lutamos uns com os outros e mais nos magoamos uns aos outros, destruindo justamente aquilo que tentamos construir. E essa tem sido a história de Narcóticos Anónimos até há bem poucos anos. Destruíamos ao mesmo ritmo a que construíamos. Nós somos pessoas assim e precisamos de reconhecer isso para podermos recuperar. Todos nós devemos conhecer a natureza da doença, a natureza do adicto, e a natureza da recuperação. Todas essas coisas são necessárias para crescer, e para viver, e para mudar. E nós começámos com ressentimentos; os ressentimentos fizeram-nos crescer. Antes de NA havia os GDFH, os Grupos de Drogas Formadoras de Habituação. Estes eram clandestinos, havia duas ou três pessoas que se reuniam em apartamentos, aqui e ali. Ninguém sabia onde ficavam, e eram dominados por uma ou duas pessoas. Nós não apreciamos grandemente a autoridade, não gostamos dela. Algumas das pessoas que eu conhecia da rua, da parte oriental de NA, formaram um outro grupo conhecido por Adictos Anónimos. Infringiram no nome de AA e morreram muito depressa pois estavam demasiado dominados por um só indivíduo. Um outro grupo começou no vale (San Fernando Valley) que também se chamava GDFH e era dominado por um indivíduo. Por isso descobrimos muito cedo, e a nossa experiência ensinou-nos que não podemos ter pessoas a mandarem, tipos importantes em Narcóticos Anónimos. Durante uns tempos depois de nos formarmos - há muita coisa que se passou de que não vou falar esta noite - mas devido a algumas coisas que aconteceram, e à natureza do adicto, a natureza da nossa doença, algumas pessoas foram colocadas numa posição em que voltaram a ser líderes, o Grande Pai Branco. Sabem, nós não podemos ter um Grande Pai Branco ou uma Grande Mãe, isso não funciona nesta organização. E NA morreu mais uma vez, e os nossos amigos em AA ajudaram-nos a levantar-nos, e disseram-nos, "Não deixem que isso vos incomode." Esses eram os nossos verdadeiros amigos no início; membros de AA que acreditavam em nós, membros de AA que tinham também um duplo problema e reconheciam isso - vieram e ajudaram-nos a começar de novo. Mas isso voltou a acontecer. Uma pessoa tentava dominar todo o movimento. E sempre que acontecia nós começávamos a morrer. Porque as Tradições vão pelo cano abaixo quando tentamos isso. E uma das primeiras coisas que dissemos quando nos reunimos como grupo naquela casa, a prioridade número um, era que acreditávamos que este programa de 12 passos iria funcionar para adictos bem como para alcoólicos. Em segundo lugar, as Tradições deverão ser observadas se quisermos crescer, crescer como irmandade que se mantém de pé sozinha, sem a ajuda de Alcoólicos Anónimos. Podíamos tomar o nosso lugar enquanto irmandade, e não sermos dominados ou afiliados a nada nem a ninguém. E dissemos que iríamos manter uma sala aberta durante pelo menos 2 anos, e se nesse período um ou dois adictos mostrassem que este programa resultava para eles, teríamos achado que havia valido a pena. Foi basicamente assim que começámos. Mas discutimos durante cerca de seis semanas antes de pôr aquelas orientações no papel, e depois não as quisemos. Eu achei que quanto mais cedo nos víssemos livres das orientações, tanto melhor; pois as orientações contidas nas Tradições são suficientes para aquilo que precisamos de fazer. As Tradições irão salvar-nos de nós próprios. E é isso que é tão necessário para uma irmandade como a nossa. Deste lado fica a vida - o outro caminho é a morte, tal como a conhecemos. Mas como é difícil não voltarmos atrás! Tão difícil que é!!!
O primeiro assunto pendente que tínhamos quando nos juntámos era o nome. Eu fui o primeiro Coordenador daquilo que então se chamava - uh - nada. AANA, era assim que se chamava, e eu disse, "Não podemos fazer isso". Vocês elegeram-me vosso coordenador, temos de arranjar outro nome, não podemos chamar-nos AANA ou NAAA. E o Comité que me elegeu coordenador vetou imediatamente aquilo que eu disse. Bem, é uma boa maneira de se começar. Na primeira noite vetaram tudo aquilo que eu disse, por isso eu achei que tinha começado muito bem. Eu não ia aturar chatices deste tipos. Eles iam acabar por descobrir aquilo que estava certo. E por isso o primeiro assunto pendente foi contactar Alcoólicos Anónimos para ver se podíamos usar o seu nome; e assim descobrimos que não podíamos. Por isso eu obtive, pelo menos, a satisfação de estar certo quanto à primeira coisa que foi vetada. Isso fez-me sentir um pouco melhor, porque vos digo, eu consigo as coisas à minha maneira a maior parte das vezes. Sei que vocês reconhecem isso, porque o mesmo se passa convosco. Somos assim. Mas tivemos muitos problemas da primeira vez que nos juntámos; porque eu sou como vocês e vocês são como eu. Vocês vão ter de me mostrar que aquilo de que falam irá funcionar, ou eu não vos apoiarei. E graças a Deus que somos assim. Acho que é isso que acaba por fazer este programa resultar. Foi muito difícil encontrar um local para nos reunirmos; depois de nos juntarmos e de decidirmos o que fazer. Não conseguíamos encontrar uma sala para nos reunirmos. Ninguém nos queria. Não confiavam em nós de nenhuma forma. E é triste irmos de um sítio para outro quando se tem algo de real a construir e ninguém nos deixa usar uma sala. Por fim acabámos por encontrar uma sala do Exército de Salvação e eles deixaram-nos utilizá-la por cinco dólares por mês. Isso foi bastante bom, mas não havia lá mais nada. Havia uma pia e um lavatório, e era tudo. Não havia uma cozinha, por isso tivemos de ir comprar um pequeno fogão eléctrico e uma cafeteira, e algumas canecas - que eu ainda guardo em casa. Encontrei-as esta semana - tive-as ao longo de todos estes anos. Costumávamos dá-las uns aos outros, pois numa semana podíamos reunirmo-nos lá em casa, e na semana seguinte noutra casa. Por isso levávamos as canecas para podermos beber café. Nessa altura, éramos poucos a ter mais do que duas canecas em casa; na verdade, éramos poucos a trabalhar. As coisas eram assim. Aqui, vêem um recorte do anúncio que publicámos num jornal a informar da nossa existência. Tínhamos uma sala, tínhamos um conjunto de orientações, e tínhamos um propósito.
Aquele primeiro grupo pode já não existir, mas nós ainda estamos vivos. A sala do Exército de Salvação ainda está lá - é agora uma igreja espanhola. Depois tivemos aquilo que chamávamos "reuniões coelho", pois nunca sabíamos onde iriam ter lugar. Se hoje havia 5 ou 6 de nós numa reunião, decidíamos em casa de quem iríamos ter a reunião seguinte. E levávamos as canecas e as tigelas de açúcar e as leituras e reuniamo-nos lá. Não era que nós temêssemos as autoridades, mas os recém-chegados temiam. Fiz um cartaz e afixei-o na porta da igreja, dizia reunião de NA hoje às 20h30. E depois abríamos as portas e tínhamos uma dúzia de alcoólicos que vinham ajudar-nos. E depois havia um carro que se aproximava devagar e olhavam para o cartaz e fugiam. Ninguém confiava em ninguém - eles achavam que estávamos sob vigilância. Não acreditavam quando lhes dizíamos que não. E nós próprios acabávamos por não estar muito seguros de não estarmos. Pois como grupo decidimos que não iríamos ter problema com as autoridades e fomos até à Divisão de Narcóticos e dissemos-lhes, não lhes perguntámos, dissemos-lhes que íamos realizar uma reunião de adictos. E eles levantaram as sobrancelhas, mas nós éramos cinco. Um tipo lá, já não me lembro se era tenente ou capitão, ouviu-nos e disse, "Já não era sem tempo que isto acontecesse. Há anos que tento ajudar adictos, sem conseguir. Eu não consigo ajudar ninguém" E ele chamou um outro tenente para nos ouvir. E ele era um pouco antiquado que tinha a certeza que nenhum de nós conseguia recuperar. E ele ouvia o outro dizer, "Gosto desta ideia.", "Apoio esta iniciativa.", "Farei tudo o que possa para vos apoiar." Todo ele era apoio. E acabou por manter a sua palavra. E perguntou a este tenente o que achava, ao que ele respondeu, "Isso não vai resultar, uma vez drogado, sempre drogado. Nunca houve nenhum a ficar melhor. Não me importa o que digas, não me importa o que estas pessoas digam, isto não vai resultar." Por isso olhou para nós e eu não sabia o que dizer. Olhei para os outros, ninguém sabia o que dizer, até que o Pat, que estivera sempre calado, abriu a boca e disse, "Tenente, o meu nome é fulano de tal, nasci e cresci em tal sítio, fui pela primeira vez preso em tal sítio, e fui condenado a tantos anos. E gostaria, por isso, que fosse confirmar o meu cadastro. Já estive em todas as penitenciárias federais do país, excepto uma. E não uso drogas há 18 anos. Há 18 anos que não conheço as cadeias. E este programa resulta para mim. Agora o senhor vá confirmar isso, pois eu nunca estive fora da prisão desde miúdo até ter encontrado este programa.." E o tipo não sabia o que dizer. Não sei se o tipo foi confirmar tudo isto, mas a verdade é que o departamento da polícia e a Divisão de Narcóticos mantiveram a sua palavra. E nunca nos vigiaram, nunca fizeram nenhuma rusga, nunca nos apanharam a ir ou a vir de reuniões. E, pelo nosso lado, mantivemos a nossa palavra, tomámos conta de nós próprios e seguimos as Tradições o melhor que pudemos. E foi basicamente isso que nos fez crescer nos últimos doze anos. Foi em 1960 que voltámos a nascer, com cerca de quatro pessoas. E começámos o grupo de novo de acordo com o conceito original; os Passos para o indivíduo e as Tradições para os grupos. E desde então temos crescido devagar mas consistentemente. Acho que temos crescido principalmente porque não temos sido dominados por nenhum grupo de pessoas. Essa é a principal razão para a grande diferença. Mais o facto de cada vez mais adictos conhecerem o valor da prática dos 12 Passos. Costumávamos não ter adictos para responderem a chamadas de ajuda. Aconteciam coisas estranhas, quando 8 a 10 adictos num grupo caíam sobre um pobre drogado que estava a morrer num quarto dos fundos em casa da sua mãe. E caíamos sobre ele como vespas. Toda a gente apanhava um susto - tínhamos de ir em grupos porque ninguém ia sozinho ou aos pares. Tínhamos todos medo de ir usar se fossemos ter com outro adicto. Esse era outro dos mitos que havia sobre nós - que não podíamos ir ter com outra pessoa que estivesse a usar, sem que usássemos também. Uma das maiores mentiras de todos os tempos. Sabem que não tem uma ponta de verdade. E essa é uma das razões porque crescemos. Mais o facto de nós seguirmos, possivelmente, a melhor coisa que qualquer um de nós sabe fazer, estarmos dispostos a ouvir.
Uma vez demiti-me de coordenador de NA por não estarmos a seguir as Tradições. É uma coisa estranha. Não queria falar disto esta noite, mas vou mesmo falar. Pois embora passados quatro anos com reuniões, Narcóticos Anónimos ainda não existia. Como tínhamos dito que nos chamaríamos NA enquanto usássemos os Passos e as Tradições, quando isto se tornou na coutada de um só indivíduo, na realidade deixou de haver NA. Digo isto por duas razões; porque as coisas morreram e só ficaram alguns de nós, mas também porque mostra que este programa, quando começamos a vivê-lo, não podemos largá-lo, pois ele volta a crescer. Este programa não vai morrer, mesmo que todos nós nesta sala falhássemos, pois essa é a própria natureza da recuperação: que uma vez plantada a semente do conhecimento de que algo pode resultar, essa semente nunca mais irá perder-se. Alguém pegará nela e continuará o caminho. O nosso percurso já é longo. Como diz aquele anúncio de cigarros, "O teu caminho já é longo, querida, para teres chegado onde chegaste."
E acho que vou ficar por aqui, pois já estou a levitar, estou quase a bater no tecto. Nós estamos a crescer mais depressa do que nunca. Estamos em mais estados, em mais países, e existem mais oportunidades para cada um de nós encontrar o seu lugar em Narcóticos Anónimos e transmitir a mensagem de recuperação a adictos em todo o mundo. Já não é possível restringirmo-nos à Califórnia ou aos Estados Unidos. Mas são precisas todas as nossas forças para nos mantermos neste programa. Não é um programa para quem desista logo. Mas se formos adictos nós não desistiremos assim sem mais nem menos, sem não estaríamos aqui. Vamos pegar naquilo que temos e tornarmo-nos pessoas melhores. Tenho dito muitas vezes que um homem sem um sonho é só metade de um homem, e uma irmandade sem uma visão é uma farsa. E ainda acredito que podemos realizarmo-nos vivendo um dia de cada vez. E um dia de cada vez a nossa visão e a nossa Irmandade podem tornar-se uma realidade maior. São aquilo por que ainda me interesso. Há dois anos, numa convenção, disse que enquanto fosse vivo usaria a minha voz e todas as minhas forças para prosseguir os objectivos de Narcóticos Anónimos e dessa outra irmandade maravilhosa a que pertenço, Alcoólicos Anónimos. E tenciono fazer isso. Mas vai exigir tudo de mim, e vai exigir tudo de vocês, e de todos aqueles com quem falarem e de todos aqueles a quem transmitirem a mensagem, para tornar isto uma realidade maior. Há pessoas por todo o mundo a morrerem da nossa doença e, quer acreditemos ou não, somos os únicos que podem verdadeiramente ajudá-los. Não nos esqueçamos disso. Através da nossa doença foi-nos dado - através do sofrimento - um talento para ajudar outros seres humanos como nós. Não nos esqueçamos que a temos e que somos responsáveis perante outros. Mas devemos principalmente ser responsáveis perante nós próprios e - eu raramente falo sobre Poderes Superiores, o conceito particular que eu tenho de um Poder Superior, mas acreditem que tenho um. E não sei quantas pessoas estão aqui hoje, 100, 110, 112, mas acima de todos nós, e através de todos nós, existe um poder que não há em mais nenhum lugar do mundo. É disso que se trata Narcóticos Anónimos. É disso que sempre irá tratar-se. E não estou a brincar - este é um programa de vida e de viver. Mas já estou sério há demasiado tempo e espero que nos divirtamos todos esta noite, pois é disso que se trata viver. Muito obrigado.